travessia

no meio do caminho tinha o diabo.

 

passamos, inhora, passamos, sinhô.

 

,

m. matias.

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Poème du moment (ou brinquedo de letras)

À elle, ma belle Isa-belle, como quem balbucia as primeiras letras.

« aujourd’hui quero dizer que sans vous la vie serait ennuyante,

(sinon impossible)

e para acrescentar olharei para o centro de meus abat-jour

avec un regard transfiguré par l’expérience imminente de la mort

(ou da épiphanie de se savoir un être vivant e animado pelo fôlego dos altos)

e comme ceux que são carregados por asas de oiseaux

deixar-me-ei estar (ser, jamais)

pendente ao canto, sob a imponente e charmante revoada de fusco e

lumière

enquanto vós, de lâmpadas, me vedes, e vendo, vous savez,

que eu hei-de restar

aqui, innomable, e só.”

 

M. MATIAS.

Em 28 de agosto de 2012.

Devocional

É preciso que o poeta

tenha as mãos na terra,

ainda que o chão seja aquele

em que me floresçam, mudas,

as suas chagas.

 

É preciso que ele tenha

não os pés, platôs duvidosos,

mas os dígitos mesmos sobre a superfície carnal

da terra.

E é forçoso que saiba deixar, se o exige o dito,

deixar assim esta montanha, desadjetivada,

não triste, não desabitada,

sobre os prados, estes sim, quando se os quer, desconsolados.

 

É preciso duvidar do toque, do ritmo e do alcance,

basta que se estendam os olhos aos entes para que eles restem

enxovalhados,

e como as palavras são modos de enlaçar as coisas,

urge descrê-las.

O poeta tem o toque, não como de midas, que a nada faz ouro,

oiro para comer, inútil pasto,

tem o toque que o teria, se pudesse tocar, uma paleta de cores,

ânima aquarela,

que na proximidade infinitesimal já deixa o rastro e nunca permite

falar a coisa,

mas mancha-lhe a cara de si mesma.

 

Urge descrer dos francesismos, não é o poeta ourives

(oiro, não),

tampouco dá eternidade e matéria ao que, doutro modo, sobraria inexpresso,

porque a eternidade a ninguém pertence, não é coisa e nem nelas está,

a eternidade é um ídolo oco, como todos os ídolos,

diante do qual se assenta, estúpida, a humanidade, e assente.

Tampouco há matéria nos olhares. Há ato, só isto.

 

O mundo é como a rádio

(de fato o mundo todo é uma enorme estação radiofônica)

Que toca a despeito de nós, mas que sempre toca

a nós, porquanto não haja outro alguém que possa

ouvir e estar de acordo.

Mas também nós, para acrescer às dores do dia (o mundo não tem dores), somos minúsculos radiozinhos. De algum modo, rangemos na programação.

O saber é da rua. Eu, que pertenço às sendas, aos matos e aos

descampados, não sei.

Ergo o volume do meu rádio sem torres ou linhas.

E ouço.

 

M. MATIAS.

Em 25 e 27 de agosto de 2012.

Diz ele

Os vossos cinzéis, os vossos deuses, os vossos luminosos dentes, nada seduz-me ou me açaima. Acostumei-me a fazer-me pelo que se não vê. Vim ao mundo tão vesgo que nunca pude imprimir retos os caminhos, e os seixos, todos brilhando vidrilhos, deixo-os suspensos num uni-verso que se dá a ver, um pouco por vez, em velhos monóculos nebulosos. Há muito busquei compreender, com a intuição súbita e aguda de anjos, os desandos que aqui vão, cavoucando um pouco mais fundo, tocando e rangendo mais uma légua nas trilhas secas. É tudo linhas de passaredo. E o embalo dos cantos, o guinchar afundado das rezas leva-me sempre a um semiestado de mim em que inerravelmente sou conduzido a uma parede de flores e árvores grávidas; ali, onde volutas gordas parecem soerguer-se de um futuro próximo para achar-me resolutamente teso num passado de esperas, enformo passantes. Sou fluidez como de cigarros. Tudo isto, por que vos perguntais tão infrequentemente, é um largo e obtuso dolorimento. E, de repente, sem sinal ou vulto que prenuncie, entrevejo-me a cumprir um vagar de mitos, há tanto mesmo e algures traçado que as colunas de mim não o alcançam nem por longas cordas; aterro-me num lamaçal de peixes. Há áridos pântanos, mas toda a terra pasma num ominoso silêncio de antes da estação das lavras. Já nem o vapor do trigo ou das batatas visita-me as narinas. Logrei render-me à cena se só nisto pudesse resgatar o manso plangente de violinos; em tudo, no entanto, balouço apenso. Coisa qualquer daria por um este; por nada, meu senhor, anuiria ao norte. Sei dos páramos que atravesso, e a imagem lá imersa a reconheço doutras paragens, estatizada, estendendo-se solene que por um momento a faria nossa de límpida vontade. Contudo, há vaziez nas salas. Ainda agora, o âmago do nós não se verteu: sangro-me nulo por tantos feixes quanto há renques cravados nesta terra de além-mais. Não resto amado: resto vacante.

M. MATIAS.

Em 1º de junho de 2012.

Relato em terra

Não sou baiano.

Não sou virtude.

Sou de Goiás.

Meu sangue jaz embicado

em pastos secos e descampados.

Sou pó e se me ergo

para a colheita

tudo que encontro

são paus e seixos.

Ando na linha.

Cirando com as rodas d’água.

Sou monjolo, sou pilão

Amasso.

Amargo.

Não deixo trilheiro.

Só desço a trago.

Recolho-me em alpendres

junto aos teares.

Rebento em gotas rubras

de dedos minados.

Vivo no aquém do mundo.

Imundo o além da vida.

Trinco tudo.

E amiúde saio galreando

no meio da boiada

longe, longe, estouro

com as curicacas.

 

M. MATIAS.

Em 17 de abril de 2012.

eu-de-verbo

eu rio,

ele água,

tudo aterra,

nós, leito.

 

eu canto

ele encontra

nós, cantoneira.

 

eu oculto

ele planta

nós, sementeira.

 

eu ouço

o mundo enquanto

ele atenda

nós, no entanto,

nos estendemos

em campo aberto

destemperando.

 

ele rumina

eu empasto.

semeio algo,

e é ocaso,

a gente inteira.

 

M. MATIAS.

Em 24 de março de 2012.

campo aberto

sinto vasta a pobreza de mim.

tivesse palavras e teceria retratos

ou não vacilassem no longe os fios

dos quais pendo, sem traço ou margem,

inanimado.

 

contudo, vejo, e um só é o caminho.

 

inútil é vagar nos campos ou buscar

no calor de sóis ou no lume de velas

o ardor que fui eu.

águas dão-me às comportas do agora.

 

singraria ainda a amplidão das cores frias

ou far-me-ia matéria de pintura

dando-me a poucos cêntimos

numa praça de outras memórias.

 

tudo quanto me desabita é um abrir de ossos.

 

cavo-me nos chãos para esculpir-me em espelhos de pedra,

chego a desver-me

por postigos que não alcanço

e então é o salto

;

nem as vestes que me vêm no ventre de corvos

chegam-me a cobrir a nudez

ou a afastar das vistas

o que dói desvelar –

minha carne mesma é o andrajo.

 

se caio ou se aqui flutuo

em fortes ventos que me demoram,

não sei.

sobrestou-me.

M. MATIAS.

Em 24 de fevereiro de 2012.

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